Fazer picolé para onças, pelúcia para filhotes e entreter tartarugas: como é a rotina curiosa de veterinários de animais silvestres

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Fazer picolé para onças, pelúcia para filhotes e entreter tartarugas: como é a rotina curiosa de veterinários de animais silvestres


Projeto em Taubaté usa estímulos para preservar comportamento selvagem de animais
No consultório de veterinários que trabalham com animais silvestres, a rotina pode incluir tarefas bem diferentes das vistas em clínicas tradicionais: preparar picolé para ajudar a refrescar onças em dias quentes, dar mamadeira para filhotes resgatados, pelúcias para bichos órfãos e até criar brincadeiras para estimular tartarugas.
As atividades fazem parte dos cuidados diários em espaços como o Parque Ecológico Selva Viva, onde profissionais atuam na recuperação e no bem-estar de espécies da fauna brasileira.
No Dia Nacional dos Animais, celebrado neste sábado (14), o g1 conta histórias curiosas do trabalho desses veterinários que ajudam a mostrar como criatividade, atenção e conhecimento técnico se combinam para garantir qualidade de vida aos animais atendidos.
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Fazer picolé para onças, pelúcia para filhotes e entreter tartarugas: como é a rotina curiosa de veterinários de animais silvestres
Divulgação/Selva Viva
Em entrevista concedida ao g1, o biólogo-chefe do projeto Selva Viva, Marcus Buononato, comentou que as atividades do dia a dia são curiosas e pouco conhecidas pelo público. Uma delas é a estratégia que ajuda a evitar que os animais, inclusive os que não voltarão à natureza, se acostumem demais com a rotina do cativeiro.
Além das atividades de estímulo, o projeto também busca garantir o bem-estar dos animais abrigados. Para isso, em dias de calor, a equipe oferece “picolés de sangue” e “milkshakes” preparados para refrescar os bichos. Já durante o inverno, os espaços recebem mais feno e os animais passam a contar também com cobertores e ambientes aquecidos.
Grande parte dos filhotes que chegam à instituição é órfã. E para minimizar o impacto da perda materna, alguns deles têm bichos de pelúcia e são alimentados até com mamadeiras ou pequenas seringas.
Foi o caso de Cacau, um bicho-preguiça amazônico que chegou ao projeto ainda pequeno após ser resgatado. Até hoje, o animal mantém a pelúcia por perto em seu recinto.
Bicho-preguiça Cacau abraçada em pelúcia enquanto come folhagem no Selva Viva.
Divulgação/Selva Viva
Para ajudar os animais a sempre estarem em movimento, a equipe esconde e prende alimentos em caixas e fios, utiliza brinquedos e cria situações que incentivam os bichos a explorar o ambiente e usar habilidades que seriam necessárias na natureza.
"A gente coloca caixas de papelão, com o alimento dentro. Que é para o animal destruir a caixa mesmo e encontrar o alimento (...) E a gente faz isso também com as aves. Então, você vai colocar a comida dentro de pedaços de madeira, né? O tamanduá, nós temos cano, cano plástico cheio de furos", relatou.
Varal de alimentos ajuda a estimular e movimentar as tartarugas no momento de comer.
Divulgação/Selva Viva
Como parte dessas práticas, os funcionários também oferecem brinquedos aos animais, como bolas e boias, e produzem objetos com penas, semelhantes a espanadores. A criatividade é importante para dar aos bichos uma ambientação enriquecedora.
O objetivo das atividades é estimular comportamentos naturais, como procurar comida ou interagir com o ambiente, algo essencial para a fauna.
Buononato explica que, para que os trabalhos sejam bem-sucedidos, o contato entre a equipe do Selva Viva e os animais é mantido no mínimo possível.
De acordo com o biólogo, a medida é necessária para evitar a criação de vínculos entre humanos e as espécies. Assim, os animais preservam a bagagem selvagem.
Projeto em Taubaté usa estímulos para preservar comportamento selvagem de animais
Espécies que contribuem para a ciência
Entre as espécies mais curiosas presentes no Selva Viva está o monstro-de-gila, um lagarto raro encontrado principalmente nos Estados Unidos e no México.
De acordo com Buononato, apesar de venenoso e potencialmente perigoso para humanos, o animal teve um papel importante para a ciência: ele contribuiu para o desenvolvimento de medicamentos usados no tratamento de diabetes tipo 2, como as canetas injetáveis.
A cobra jararaca é outro exemplo de bicho que já ajudou a ciência. O veneno da espécie foi utilizado em remédios para tratar a pressão alta.
O lagarto monstro-de-gila (de nome científico 'Heloderma suspectum') fotografado em Sonora, no México.
Andrew DuBois via Flickr
Educação ambiental
No local do projeto, as aves e felinos são os que costumam impressionar os visitantes. Mas, segundo o biólogo, muitas vezes não são esses que mais chamam a atenção das crianças.
Ao serem questionados sobre qual animal mais gostaram durante o passeio, os visitantes infantis citam, por exemplo, o sapo-cururu. De acordo com Buononato, a reação mostra como o contato com diferentes bichos pode despertar o interesse pela natureza.
"Para você gostar, você precisa conhecer. Então, esse é o nosso intuito aqui, mostrar a curiosidade, mostrar a diversidade, pra que você valorize isso. A partir do momento que você tem uma valorização, você vai cuidar", disse.
"Eu, como biólogo, considero o melhor amigo do homem (o sapo-cururu), melhor que o cachorro. Porque o cachorro não come cobra, o cachorro não come aranha, o cachorro não come escorpião, o cachorro não come barata. E o sapo-cururu, que às vezes está ali no quintal de casa, que as pessoas fazem de tudo para enxotá-lo, jogam sal nele, é um animal importantíssimo para nós", afirmou.
Sapo cururu é um grande aliado ao controle de pragas
Floyd E. Hayes
Selva Viva
O Selva Viva é um espaço de reabilitação de animais silvestres resgatados de situações de maus-tratos ou apreendidos por órgãos públicos. Após o tratamento, parte desses bichos é devolvida à natureza ou encaminhada para outras instituições.
Desde 2016, o local também tem licença para funcionar como zoológico aberto à visitação.
Segundo o biólogo-chefe do projeto, cerca de 99% dos animais que vivem no Selva Viva foram criados em ambientes artificiais, o que dificulta ou até impede a devolução à natureza.
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