Por que Trump apoiou vice de Maduro em vez de líder da oposição na Venezuela

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Por que Trump apoiou vice de Maduro em vez de líder da oposição na Venezuela


María Corina Machado ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 2025
AFP via Getty Imagens, via BBC
"Ela é uma mulher muito simpática. Mas não tem o apoio nem o respeito do país."
O que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse no último sábado (3) sobre a líder da oposição venezuelana María Corina Machado surpreendeu e, em muitos círculos oposicionistas, desagradou.
Após dar detalhes sobre a prisão de Nicolás Maduro, Trump afirmou que os EUA irão administrar a Venezuela.
A palavra "transição" foi mencionada, mas não houve referência a eleições.
Menos ainda ao comando da oposição, representada principalmente por Corina Machado, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, e Edmundo González Urrutia, a quem muitos consideram o presidente eleito da Venezuela após as eleições de 28 de julho de 2024.
Nessas eleições, a oposição coletou 85% de cópias das atas de votação que confirmariam sua vitória e denunciou fraude eleitoral depois que o Conselho Nacional Eleitoral proclamou Nicolás Maduro vencedor sem apresentar os registros oficiais. Até hoje, o órgão eleitoral não divulgou esses documentos.
Tampouco ocorreu a esperada troca de governo com o ataque dos EUA em território venezuelano.
Na segunda-feira (05), a até então vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumiu a presidência interina, como se define a Constituição da Venezuela em caso de ausência de presidente.
Delcy Rodríguez toma posse como presidente da Venezuela 
Rodríguez é considerada uma pessoa leal a Maduro e integrante de seu círculo de poder.
"Ela é uma das principais operadoras da tortura, perseguição, corrupção e tráfico de drogas", descreveu Corina Machado na segunda-feira (5) em entrevista à emissora americana Fox News, a primeira concedida por ela desde a captura de Maduro.
"Ela (Rodríguez) é a principal aliada e o principal elo com a Rússia, China e Irã; certamente não é uma pessoa em quem os investidores internacionais possam confiar e é amplamente rejeitada pelo povo venezuelano", disse Corina Machado.
Corina Machado também elogiou Trump por suas "ações corajosas", lembrou que dedicou Prêmio Nobel da Paz que recebeu em outubro ao presidente dos EUA e, ao ser questionada sobre sua possível volta à Venezuela, respondeu: "Quero voltar o quanto antes".
Corina Machado sustenta que a oposição que lidera transformaria a Venezuela em um centro energético para as Américas, que restauraria o Estado de Direito para garantir a segurança do investimento estrangeiro e que facilitaria o retorno dos venezuelanos que, segundo ela, deixaram o país durante o governo de Maduro.
"A transição precisa avançar", disse.
Mas em que situação ficam Corina Machado e a oposição com a queda de Maduro?
O verdadeiro aliado de Corina Machado
Antes das declarações de Trump no sábado, "entre os cenários possíveis estava o retorno de Edmundo González à Venezuela e Corina Machado como sua vice-presidente", disse Carmen Beatriz Fernández, analista venezuelana e professora da Universidade de Navarra (Espanha), à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
De fato, Corina Machado divulgou um comunicado em suas redes sociais: "Permaneçamos vigilantes, ativos e organizados até que se concretize a Transição Democrática. Uma transição que precisa de TODOS". E acrescentou: "Hoje estamos preparados para fazer valer nosso mandato e assumir o poder.
Mas, agora, disse Fernández, "esse cenário parece ter perdido força".
Nos últimos meses, Corina Machado alinhou-se ao discurso do governo Trump e, ao receber o Prêmio Nobel da Paz, disse: "Hoje, mais do que nunca, contamos com o presidente Trump".
Nesse contexto, Corina Machado afirmou à BBC estar grata pelo que Trump vem fazendo "em todo o mundo pela paz".
No entanto, o verdadeiro vínculo não é entre Trump e Corina Machado.
"Trump e Corina Machado nunca foram aliados. Isso é uma ilusão. Ele nunca reconheceu a liderança dela. O aliado ali, o interlocutor, é Marco Rubio", disse Santiago (nome fictício), um analista venezuelano que pediu para não ser identificado, à BBC News Mundo. "A liderança da oposição venezuelana tem consciência disso, e sabe como lidar com essa situação."
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, também participou da coletiva de imprensa de 3 de janeiro, na qual foram apresentados detalhes da captura de Maduro
Joe Raedle/Getty Images via BBC
Marco Rubio, como secretário de Estado dos EUA, é uma figura-chave da política externa e do governo do país.
Mas, por ora, parece que a aliança entre ele e Corina Machado também não se concretizou.
"María Corina Machado é fantástica e é alguém que conheço há muito tempo. Mas estamos lidando com realidades imediatas", disse Rubio ao ser questionado, em entrevista à emissora CBS, parceira da BBC nos EUA, sobre a razão de não trabalhar com ela na operação contra Maduro.
"A realidade imediata é que, infelizmente, a maior parte da oposição já não está presente dentro da Venezuela", afirmou.
"Há questões de longo prazo que precisam ser tratadas em algum momento (...) Mas o que estamos discutindo é o que vai acontecer nos próximos dois ou três meses", acrescentou Rubio.
Uma das reivindicações da oposição é o reconhecimento dos resultados eleitorais de 28 de julho de 2024
Thomas COEX / AFP via Getty Images, via BBC
"O que Rubio está fazendo é realpolitik (política pragmática, em tradução livre do alemão)", afirmou Santiago.
O analista se refere a uma abordagem em que prevalecem interesses nacionais pragmáticos e objetivos, neste caso, os dos Estados Unidos.
Dessa forma, explica, Trump buscaria assegurar uma transição ordenada e estável, com o objetivo de evitar mais migração venezuelana.
Provavelmente, exigirá contratos petrolíferos para as empresas americanas, algo que poderia ser viabilizado pela legislação da nova Assembleia Nacional, que tomou posse na segunda-feira (5) e é controlada pelo Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV, na sigla em espanhol), o partido de Maduro e de Delcy Rodríguez.
Reportagens de veículos de imprensa dos EUA, entre eles o jornal The New York Times, afirmam que o governo Trump avalia que Corina Machado está muito isolada nos meios político e empresarial da Venezuela, sem planos concretos para assumir o poder, e que uma tentativa de substituir o governo Maduro pela oposição neste momento poderia levar a uma escalada de violência no país.
Além disso, segundo a mídia americana, o principal foco de Trump e seu entorno no momento é o petróleo venezuelano.
Com uma estimativa de 303 bilhões de barris, a Venezuela abriga as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Após a prisão de Maduro, Trump afirmou publicamente que empresas petrolíferas norte-americanas devem investir bilhões de dólares no país sul-americano para recuperar a infraestrutura petrolífera "gravemente deteriorada" da Venezuela e começar a gerar dinheiro.
'É um processo incômodo'
Após 26 anos no poder, primeiro com Hugo Chávez (1999-2013) e depois com Nicolás Maduro, o chavismo tem raízes profundamente entranhadas nas instituições venezuelanas e nas Forças Armadas.
"As forças democráticas venezuelanas têm poder limitado para criar a realidade. Elas têm consciência disso", ressaltou Santiago.
Tentar desmontar essa estrutura ou, ao menos, assumir o controle do Estado poderia ser uma tarefa mais do que titânica para qualquer integrante da oposição, por maior que fosse o apoio eleitoral.
"Não existe uma transição em que eles (a oposição) estejam no comando. O que poderia haver, no máximo, é uma mudança, porque eles são os guardiões da legitimidade democrática e, nesse entendimento, a oposição está unida. Mas, neste contexto, uma transição só pode ser conduzida por um operador interno. É algo que precisa ser supervisionado por agentes do próprio país", acrescentou Santiago.
Ele cita como exemplos os casos das transições no Chile e na Espanha, em que atores do regime anterior foram os responsáveis por conduzir os principais rumos do processo de transição.
"Isso é incômodo para a liderança da oposição venezuelana. Mas eles entendem os processos. Neste momento, estão agindo com prudência e paciência. Não há urgência. Embora já estejam fazendo algumas exigências, como transparência imediata em temas como o dos presos políticos", detalhou Santiago.
Nessa mesma linha falou Edmundo González, no domingo (4).
Em um comunicado gravado em vídeo e divulgado em suas redes sociais, ele afirmou que "este momento é um passo importante, mas insuficiente".
Segundo González, um "verdadeiro processo de transição democrática" e uma "normalização real do país" só seriam possíveis com a "libertação imediata e incondicional dos presos políticos, civis e militares, sequestrados por pensar diferente, por exigir direitos ou por cumprir seu dever constitucional".
"Nenhuma transição democrática é possível enquanto houver um único venezuelano preso de forma injusta", acrescentou González.
Ele também conclamou as Forças Armadas a "cumprirem o mandato soberano de 28 de julho" e pediu que sejam "leais à Constituição, ao povo e à República".
O custo político das ações dos EUA
Fernández, da Universidade de Navarra, destaca que, tendo descartado o cenário em que González e Corina Machado lideram uma transição, "o segundo cenário é aquele em que Delcy Rodríguez assume a transição; e tudo indica que os EUA estão apostando nisso, já que está sendo formado um conselho de administração liderado pelo próprio Trump, junto com Rubio e o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth".
Fernández também pontua outro evento recente: o presidente da França, Emmanuel Macron, publicou em suas redes sociais que "a França apoia a soberania popular, e essa soberania se expressou em 2024 (nas eleições vencidas por Edmundo González)". Trump retuitou a publicação.
"Então, embora seja algo que tenha perdido relativa importância, não é uma opção totalmente descartada. Nesse estilo muito particular de Trump, que se move constantemente na ambiguidade, às vezes por estratégia, outras devido ao caráter ou estilo, ainda continua presente", destacou.
Para Fernández, o custo das ações por parte dos EUA nos últimos dias não afeta a liderança de Corina Machado.
"Ela é a líder política indiscutível da Venezuela, com níveis de aprovação e de afeto muito superiores aos de políticos que, em seu tempo, foram muito populares, como Carlos Andrés Pérez ou o próprio Hugo Chávez. Isso não mudou", afirmou.
Em contrapartida, ela sustenta que "os custos que possam estar sendo gerados pela retirada de Maduro, custos em termos de danos materiais, mortes de militares, mutilações, etc., esses custos serão pagos por Trump. Ficou claro (com as declarações de Trump no sábado) que nem Corina Machado nem González estavam cientes do que iria acontecer".
"Corina Machado, como líder política, está mais protegida hoje do que anteontem, nesse sentido. E, eventualmente, se essa transição liderada pelos EUA para Delcy [Rodríguez] for bem sucedida, haverá uma nova eleição e Corina Machado concorrerá", avaliou Fernández.
Maduro já não está no poder, mas a mudança de governo tão buscada pela oposição ao longo de anos ainda não aconteceu.
Tanto Corina Machado quanto González, assim como grande parte da oposição venezuelana, seguem no exílio, perseguidos, impedidos de ocupar cargos públicos ou presos, e terão que manter tanto sua liderança quanto o ânimo dos venezuelanos que os apoiam por meio de sua atuação nas redes sociais. Por enquanto.




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